Empoderamento digital: a história por trás do Comitê para a Democratização da Informática

Empreender não é tão simples assim. Tive momentos difíceis e precisei refazer a rota várias vezes. Mas o recente reconhecimento que ganhei como um dos 50 líderes no uso de tecnologia para educação do mundo, sendo nomeado um dos “Makers and Shakers of Education Technology” pela WISE e EdTechXGlobal, me remete ao início da minha história como empreendedor social. Há 21 anos comecei a trilhar um caminho guiado por um sonho. Vislumbrei jovens em situação de vulnerabilidade social usando computadores, discutindo suas realidades e buscando soluções para os seus problemas por meio da tecnologia. Essa foi minha primeira grande inspiração para o projeto que me permitiria aliar duas grandes paixões: a tecnologia e a ação social.

Com suporte de um grupo de voluntários, inauguramos, em março de 1995, a primeira Escola de Informática e Cidadania em uma comunidade no Brasil, no Morro Santa Marta, em Botafogo, no Rio de Janeiro. A experiência de sucesso motivou um grande interesse de outros apoiadores, entre empresas e voluntários, que nos permitiram criar o primeiro movimento para a inclusão digital no Brasil: o Comitê.

O que é o Comitê?

O Comitê para a Democratização da Informática nasceu com a missão de amenizar o abismo digital, usando a tecnologia como ferramenta cidadã para mudar vidas, transformar comunidades e ajudar na construção de uma sociedade mais justa. Nosso primeiro modelo de operação girou em torno da criação das Escolas de Informática e Cidadania, que funcionavam como empreendimentos sociais autossustentáveis e autogeridos. Nesses espaços, as comunidades tinham acesso a uma metodologia única para o ensino de tecnologia, inspirada nos ensinamentos do grande educador brasileiro Paulo Freire.

O modelo de atuação do Comitê chamou a atenção do mundo, e em 2004 fundamos também nossa Rede Internacional. Era um dos raros casos de organização social que expandiu do Sul para o Norte. Hoje nossa rede está presente em 7 países, incluindo nossa parceira Fundação Apps For Good, com base no Reino Unido e fundado pelo Comitê.

Empoderamento digital

Em 2015, ao celebrar o aniversário de 20 anos, o Comitê resolveu promover uma evolução de propósito. O objetivo era acompanhar as mudanças do mercado e de uma sociedade cada vez mais conectada, em que o acesso à Internet já é realidade para 77% dos jovens brasileiros de 10 a 17 anos. Assim, assumimos como principal missão o empoderamento digital, formando jovens autônomos, conscientes e conectados, aptos a reprogramar o sistema em que estão inseridos.

No Brasil, além de seguir nosso trabalho de formação e geração de oportunidades para jovens em parceria com instituições comunitárias, passamos a atuar com dois novos canais: escolas e bibliotecas públicas. Assim, pudemos expandir para uma rede ainda maior nossa experiência com tecnologia, cidadania e formação e fomento de redes.
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Aprendizados da organização

Ainda no primeiro ano do Comitê já havia um dilema: ou eu diminuía minha dedicação ao projeto para trabalhar e sobreviver, ou buscaria algum tipo de apoio que pudesse viabilizar mais horas do meu tempo investindo na expansão da iniciativa. Nessa época, trabalhava por conta própria fazendo consultoria de informática em grandes empresas e escolas da elite no Rio de Janeiro. Nas horas vagas, articulava o Comitê, fazia reuniões e dava aulas. Montava meu próprio horário tentando privilegiar o trabalho social. Consegui investir recursos próprios por um tempo, até que cheguei a uma situação limite.

Foi quando ouvi falar da Ashoka, uma organização mundial, pioneira no campo da inovação social, que apoia empreendedores. Foi uma alegria muito grande saber da existência de uma instituição como essa, que havia sido criada pelo norte-americano Bill Drayton ainda nos anos 1980. Minha alegria foi ainda maior quando soube que eles já conheciam o nosso projeto e disseram que certamente eu poderia apresentar uma carta-ideia, uma vez que eu tinha o perfil de um empreendedor social. Trata-se de um processo de autoconhecimento, em que você precisa definir as ideias a curto, médio e longo prazo. É um processo reflexão extremamente importante. Assim, em 1997, recebi a primeira bolsa da Ashoka para os três primeiros anos de trabalho. Ao me tornar um fellow Ashoka, pude usufruir do “fellowship”, que é a possibilidade de articulação com outros empreendedores sociais: pessoas pioneiras, altamente criativas e inovadoras em várias outras áreas. Essa articulação, para mim, sempre foi muito mais importante do que a própria bolsa.

Com essa ampla rede de contatos, reunimos muitos parceiros e mantenedores e conseguimos o impulso necessário para a expansão e o fortalecimento do Comitê. Desde então, tenho certeza da importância da atuação em  rede e do fomento a essas parcerias para o crescimento de todo o campo do empreendedorismo social. Precisamos compartilhar desafios e aprendizados, dividir experiências e buscar sinergias. Acredito que, só assim, grandes ideias não vão se perder no meio do caminho e poderão, de fato, transformar o mundo dos negócios, gerar impacto social e promover sociedades mais justas.

*Artigo publicado originalmente no Mongeral Aegon

Rodrigo Baggio

 

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